quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sobre a tragédia grega

            Com toda sua riqueza, a tragédia grega, assim como a filosofia, influenciou de modo contundente o mundo ocidental. Traçando fundamentos das artes cênicas, a Grécia desenvolve suas manifestações teatrais em um momento histórico muito fértil e propício. No livro Teatro Grego: Tragédia e Comédia, Junito Brandão apresenta uma análise histórica que permite a compreensão do contexto e do significado das obras clássicas. Além de grande importância no desenvolvimento das artes, gerou elementos de análise científica que perduraram até as discussões mais atuais. A metafísica também é abordada. Retratando situações do divino, do homem e da relação entre eles, a tragédia serve de ferramenta fundamental no estudo da história e do desenvolvimento do homem.
         A obras trágicas não possuem características constantes e imutáveis. Variando em suas fases e autores, ela pode ser mais bem compreendida como tragédias gregas. Contudo a tentativa de explanar sobre suas características gerais presentes ao longo do da história, pode servir para uma visão esclarecedora do processo artístico-cultural grego em sua efervescência.
            Os temas trabalhados nas tragédias variavam entre homem, deuses, morte, verdade, destino... Em sua maioria temas universais nos quais o conflito revelava os sentimentos e percepções dos autores. A grande ideia da tragédia é justamente apresentar problemas, conflitos. Essa ideia gera um movimento na execução da peça que envolve não apenas os atores, participantes do coro e coadjuvantes, envolve fortemente a platéia que em alguns casos participava ativamente do desenvolvimento da peça.
            A tradição religiosa grega possivelmente foi a formadora do embrião da tragédia. Nas festas ao deus Dionísio, onde havia canto, dança, manifestações artísticas variadas, pode-se notar muitos aspectos que compuseram a o teatro clássico. A linguagem, a maneira de revelar sentimentos, o agir do ator. Nos ditirambos, esses pontos se identificam claramente com o que viria a ser chamado de tragédia, posteriormente.       
            Herdeiros dessa rica tradição, os gregos passaram a sistematizar e organizar a tragédia. Destacam-se três autores: Sófocles, Eurípedes e Ésquilo. Esses autores representam o universo grego da arte da encenação, embora sejam heterogêneos e em certos aspectos contraditórios. Nessa heterogeneidade reside a riquesa da arte grega. É importante lembrar o caráter competitivo das apresentações das tragédias. Elas não eram apresentadas meramente para serem assistidas pelo grande público. Eram geralmente apresentadas sob a análise crítica, concorrendo a premiações.
            Sob a análise aristotélica a tragédia é uma imitação – não imitação no sentido pejorativo, mas uma imitação genuína, tentativa de captar essências reproduzí-las – de uma ação completa e elevada. A maneira como se dava essa imitação é de grande importância: o ritmo e a sequência das falas, as ações, a programação dos acontecimentos esclarecia e enfatizava os sentimentos e sensações que o autor desejava transmitir; o canto, os sentimentos transmitidos através de notas ordenadas cuidadosamente eram metodicamente encaixados no intuito chegar ao espectador da forma mais direta; a formação do coro, grupo de vozes que juntas geravam efeitos indescritíveis. Nesta perspectiva encontra-se um caráter fortemente emotivo na realização das peças. A forma de interpretar os textos eram pensadas e desenvolvidas visando alcançar o íntimo dos espectadores. Uma das “funções” da tragédia era justamente fazer com que a platéia de comovesse, passasse por diversos estágios emocionais durante a peça e ao fim pudessem sentir-se renovadas. Uma espécie de catarse coletiva gerando transformações positivas em cada indivíduo.
            Em As Bacantes,  Eurípedes traz a discussão sobre o inconsciênte. Em cenas nas quais o próprio Dionísio é representado, são interpretadas frases que problematizam sobre o conhecimento de si mesmo e do inconsciênte. Esse é uma exemplo claro da riqueza dos assuntos abordados nas tragédias. Uma temática como essa, que até hoje apresenta dificuldades em serem trabalhadas, eram apresentadas de forma teatral, e isso certamente possuía grande significado para todos os participantes da conjuntura artística.
             A tragédia é uma das maiores heranças que os gregos deixaram para o ocidente. Sua importância ultrapassa os limites do teatro, e da literatura, alcançando a ciência, a metafísica e a filosofia. Com um modo visceral e delicado de tratar de assundos controvertidos, os gregos propuseram uma forma de arte transcendente e completa em si mesma. Certamente o estudo da tragédia grega é fundamental não apenas para a análise da Grécia em um determinado momento histórico, mas sim muito importante para uma reflexão sobre o mundo e sobre o homem.